O rapaz jogou o leitor eletrônico na mesa, irritado.
― Vô, não quero mais ler este romance. É chato demais.
― Por quê, meu neto?
― Ninguém faz nada interessante. Só tem gente boazinha, bem-educada… Será possível que não tem nenhum romance em que as pessoas agem normalmente?
― Ter, até que tem. Li muitos deles na minha adolescência e em boa parte da minha vida adulta. Mas agora é proibido. Eu teria de ensinar a você uns caminhos estranhos na Web, que não sei se seus pais gostariam.
― Ensina, vô, ensina. Eu quero gostar de ler, mas com essas porcarias não dá.
Os olhos do avô ficam pensativos.
― Não era assim no meu tempo. Tão bom ler…
― O que aconteceu, vô?
― Quer ouvir uma história?
― Quero.
― Uma história… que tem homens maus.
― Oba! Tô nessa.
― Quando começou, ninguém percebeu. É sempre assim. Começa de mansinho, vai progredindo e, de repente, quando as pessoas acordam e querem reagir… Tarde demais.
O neto era pura atenção.
― Dicionários. Primeiro eles atacaram os dicionários. Você sabe o que são os dicionários, agora, aqueles livros que só registram palavras edificantes, conceitos bonitos, sem palavrões, sem termos preconceituosos… Ah, meu neto, no meu tempo não era assim. Por séculos, não era assim.
― E o que eles tinham, vô?
― Todas as palavras e todos os significados usados em todos os contextos, quer dizer, situações, pelos falantes de um idioma.
O neto se espanta.
― Todas? Todas mesmo?
― Todas. Sem censura.
― Palavrão?!
― Tinha.
O neto chega perto e fala algo ao ouvido do avô.
― Hahaha! Tinha… Essa e tantas outras. Os dicionaristas registravam tudo, explicando: esse é um sentido figurado, aquele é um sentido popular, aquele outro é um termo depreciativo…
― Não acredito….
― Pois é. Primeiro, implicaram com algumas palavrinhas, só algumas. Mas implicaram pesado. Por exemplo, um dos sentidos de “cigano” era “velhaco”, uma pessoa que engana as outras por maldade. E estava lá no dicionário: sentido depreciativo.
― Não sabia….
― Pois é. Mas implicaram, mesmo com a ressalva. Ameaçaram com multas astronômicas, proibição de vendagem dos dicionários, processos contra os responsáveis… As editoras cederam. Algumas pessoas disseram: “Absurdo!”, mas logo veio mais: as autoridades começaram a procurar todas as palavras e todos os sentidos que pudessem incomodar qualquer grupo social: negros, mulheres, crianças, índios, estrangeiros… Pessoas gordas, magras, doentes… E os verbetes diminuindo.
O avô ri.
― Que foi, vô? Conta.
― Nos dicionários antigos havia uma série de significados engraçados de animais: anta, burro, cavalo, macaco… Os ecologistas aproveitaram o momento: “Se não pode atacar seres humanos, é válido depreciar animais?” E os verbetes diminuindo.
― E a ABL, vô. Visitei a ABL com a minha turma, ano passado. E os autores de dicionários? Esse pessoal não lutou contra?
― ABL… Quando, em sua história, ela enfrentou o poder? Ficou calada. A mídia aproveitou a ingenuidade das pessoas para ganhar alguns pontinhos. Os dicionaristas lutaram, mas eram a parte mais fraca. Quando os editores perceberam que a pecha de preconceituoso podia beneficiar o concorrente, cederam.
― Eu não estou entendendo bem esse caso, vô. O que tem uma informação a ver com preconceito?
― Bem…
O avô pigarreia, constrangido.
― Eles diziam, em resumo, que se uma pessoa lesse uma palavra e uma definição, ela poderia ser influenciada por essa leitura e cometer um ato criminoso.
― Não acredito. É sério?
― Pois é, nem sempre as pessoas mais sensatas são aquelas que estão no poder. Lembro bem porque… Foi este o argumento deles: “Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada.” Com isso eles queriam dizer o que expliquei antes.
― Esquisito. As palavras tinham esse poder, no seu tempo?
― Não. Nunca tiveram e nunca terão. Talvez por isso um dos dicionaristas que se revoltou contra as autoridades tenha afirmado: “Esta é uma das frases mais estúpidas já enunciadas por um ser humano adulto”.
― Uau. Conta mais!
― O que o dicionarista estava dizendo é algo óbvio: não existe esse caminho mágico e inevitável da leitura para a mente e daí para o comportamento: leu — pensou o que leu — fez o que leu. Uma relação obrigatória de causa e efeito. As pessoas são seres autônomos, têm suas ideias, seus valores, julgam tudo que leem e veem… enfim, não são robôs ou marionetes para agirem sem vontade, a mando de um estranho, contra tudo aquilo que já sabem. Quem pensa assim, faz um conceito péssimo do próximo: que ele é fraco, idiota, facilmente influenciável no sentido das piores ações. Ou seja, o preconceito está, ativo e influente, em quem pensa desse jeito, não nas palavras inertes, sem vida, de um dicionário. Mas essa foi a justificativa. E o escritor falou mais.
Os olhos do neto não piscavam.
― Ele disse algo assim: “Desde a sua criação, os dicionários servem para registrar o uso das palavras pelos grupos humanos, em seus variados contextos… quer dizer, situações. Como alguém do futuro entenderá uma palavra ou um significado que faça parte de um texto escrito atualmente, se esta palavra ou este significado não constar de um dicionário? Eu não passarei à História como um profissional incompetente. Não aceito que advogado, promotor ou juiz algum determine o que incluirei no meu dicionário. Prefiro ser fiel aos valores da minha profissão, pagando por isso, a ser capacho de autoridades que podem até ter boas intenções, mas nada entendem de Linguística”.
― Por que não há histórias assim nos romances, vô?!
― Estou contando o porquê. Ao final, ele disse: “Exijo que cada dicionário atingido pela estupidez da Lei venha com o selo ‘Censurado pelo Ministério Público Federal’. Como leitor e cidadão, tenho o direito de saber quando uma obra é íntegra e quando ela foi mutilada pela projeção de preconceitos de pessoas equivocadas”.
― Nossa! E…?
― Eles ficaram zangados, muito zangados. O dicionarista foi processado. Perdeu, é claro. E daí em diante, tudo piorou. Uma palavra aqui, outro significado ali… De ameaça em ameaça, de intolerância para intolerância, os dicionários acabaram ficando assim, como estão agora.
― E os romances? Foram eles também?
― Foram. Antes disso, já tinha havido algumas denúncias policialescas: racismo, preconceito… Mas a literatura resistiu. Acontece que, aproveitando a onda de proibições nos dicionários, alguém processou um grande romancista nacional. As histórias dele eram, digamos, fortes. Tinham… sexo, brigas, traições e, pior, os homens maus venciam no final.
― Onde eu encontro o livro, vô?
― Calma, netinho. Se eu ensinar, seus pais me despejam num asilo. Então, como aquele argumento incrível – lembra? se a pessoa ler, vai aprender e depois fazer, sem escolha – já estava consagrado na Justiça… Ah, foi que nem dominó, meu netinho: os livros foram caindo um por um. O leitor que se sentisse prejudicado, era só entrar com uma denúncia. Não adiantaram os esperneios dos autores atingidos: “Nossa função social é registrar o comportamento real dos seres humanos, não o comportamento ideal”. Gritavam para inteligências vazias. Perderam.
― Que safadinhos…
― E hoje…
O avô aponta desanimado para o leitor eletrônico.
― Hoje vocês têm que ler essas histórias. As outras estão proibidas. O mundo é a maravilha das maravilhas. Mas só nos livros.
― A gente precisa conversar mais, vô. … Por que você está chorando?
O rapaz faz cara de quem tenta resolver um enigma, enquanto o avô aperta os olhos com o polegar e o indicador da mão direita, o rosto expressando sofrimento.
― Vô… era você?! Aquele dicionarista…