Arquivo de outubro \29\UTC 2011

Aos que estão comemorando, uma lição dos ficcionistas

Não existe causa e efeito na psicologia humana. A um fato não corresponde, necessariamente, uma reação.

“A ocasião faz o ladrão”, não – “A ocasião revela o ladrão”.

Todos os bons autores da ficção conhecem essa verdade humana. Por isso, eles criam situações que revelam o que já existe dentro dos seus personagens. E deixam claro que, fosse outro o personagem, seria outra a reação.

Aqueles que se manifestaram com prazer e ódio ante a notícia da doença da então candidata Dilma Rousseff, aqueles que expressaram preconceitos contra os nordestinos no dia de sua eleição, aqueles que desejaram a morte da Presidenta durante a cerimônia de posse, aqueles que se manifestam com prazer e ódio ante a notícia da doença de Lula…

… eles já eram assim. A situação apenas revelou quem eles são – e, infelizmente, se não fizerem um trabalhinho interior necessário, quem continuarão a ser.

Pior, eles não conseguem ver no espelho de seus próprios tuítes, de suas frases nas caixas de comentários, de seus posts, a imagem clara da sua própria degradação como seres humanos.

Os nossos mais sinceros pêsames e toda a nossa compaixão pelo fato de a vida tê-los levado por esse caminho, para muitos, sem volta.

Enquanto isso, no Bar do #Mimimi…

Diz o PIG (Partido da Imprensa Golpista), desolado, aos líderes da Oposição:

“Vocês não me ouvem. Logo eu, que tenho a melhor estratégia para voltar ao poder.”

Diz o MAP (Militantes Alijados do Poder), desolado, aos líderes da Situação:

“Vocês não me ouvem. Logo eu, que tenho a melhor estratégia para permanecer no poder.”

Os extremos têm a mesma face, no espelho da realidade.

* * *

Lição número 1 da Política: Poder não se concede, mas se conquista.

Prêmio CBJM de Jornalismo Manipulativo – 11

SEMANA DE 3/10/2011 A 9/10/2011

Por ter usado uma notícia culturalmente relevante para satisfazer uma necessidade psicologicamente fútil, invertendo a ordem de prioridades num título, o Prêmio CBJM de Jornalismo Manipulativo desta semana vai para…

… a blogueira-jornalista Thaisa Galvão.

http://www.thaisagalvao.com.br/2011/10/03/miguel-nicolelis-fora-do-nobel-de-medicina/

No jornalismo manipulativo, todo dia é dia, toda hora é hora, toda notícia é uma oportunidade para praticar uma distorçãozinha safadenha.

Repare na impropriedade jornalística da afirmação: “Miguel Nicolelis fora do Nobel de Medicina”. Nobel é questão de “dentro” e “fora”?

Repare na gratuidade do primeiro parágrafo: “Sai (sic) o Prêmio Nobel de Medicina e (sic) o neurocientista Miguel Nicolelis… não passou perto (sic).”

A blogueira-jornalista teve acesso exclusivo à lista final de candidatos, para poder afirmar com tanta certeza que o neurocientista “não passou perto”?

E isso importa? O importante é usar o fato de repercussão internacional para comemorar no título e no início da matéria a “derrota” de um desafeto pessoal. Então, que venha uma dupla comemoração, porque jamais faltamos aos nossos.

Miguel não ganhou aquele premiozinho, Thaisa, mas você ganhou o prestigioso Prêmio CBJM – que também é para poucos.

Com uma vantagem: para ganhar o nosso, nem é preciso ter cérebro.

Fonte da imagem do troféu:

http://maxmariz.blogspot.com/2011/04/trofeu-3d.html

Lição de humor

Vamos resumir para os nossos alunos, porque este ponto é facílimo de entender. Os mais sensíveis, por favor, fiquem por aqui, porque esta lição pertence ao nosso Curso Avançado e revela uma verdade chocante. A qual, por motivos óbvios, não deve ser publicamente assumida.

Leiam:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra c***lho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus.”

O “humorista” Rafinha Bastos, sobre estupro de mulheres.

“Eu comeria ela e o bebê”.

O “humorista” Rafinha Bastos, sobre Wanessa Camargo, ao comentar a gravidez da cantora.

 ”Votar na Dilma porque ela foi torturada? F**a-se. Eu pedi para ela ser? Sério. Um presidente tem que ser esperto. Se ela foi presa e torturada, é porque ela era uma idiota”.

O “humorista” Danilo Gentili, sobre a prisão e tortura de Dilma Rousseff pela Ditadura Militar.

 

Provavelmente, nossos alunos mais experientes já perceberam a lição. A principal característica do nosso humor, o humor de direita, é a mesma atitude que caracteriza a nossa política: a falta de solidariedade humana.

O desrespeito que se expressa no prazer de humilhar publicamente os semelhantes (ou melhor, dessemelhantes, porque inferiores a nós) é somente a externalização dessa atitude.

Nosso humor é como a nossa política: elitista, insensível e, em última análise, sádico. O humor e a política de direita são duas formas de manifestação da mesma falta de humanidade.

Agora, nosso alvo preferido. As três declarações acima têm um ponto em comum: tentam fazer o ouvinte ou leitor sentir-se confortável, feliz e até conivente com o desrespeito físico imposto às mulheres. Desrespeito físico no mais alto grau: do estupro à tortura.

Desenhamos?

* * * * *

Recapitulando:


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